Entre um trabalho e outro, dou uma paradinha... só para respirar. Passo por aqui e imagino estar entre almofadas ou sentada no tapete. Leio, escuto música, relembro filmes e trilhas sonoras (eu adoro !!!). Penso até no que incomoda ou revolta...não fujo! Lembro das amizades presentes e distantes, dos momentos felizes, engraçados ou picantes. Sinto saudade. Reorganizo as idéias e aí dá para relaxar. De quando em quando penso no trabalho ou assuntos voltados à minha área de atuação, mas não é este o objetivo principal. Quando sobra tempo, deixo uma postagem sobre estes temas e quero muito agradar. Vem comigo ! Deixe um comentário ou mande um e-mail. Vou adorar !

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tom Jobim faria 84 anos se estivesse vivo

Olha só, hoje Tom Jobim faria 84 anos se estivesse vivo. (na verdade  se encontra vivo por meio de suas canções). Sei que o texto é grande,  mas vale a pena ler cada linha. Você não vai se arrepender. Assista primeiramente este vídeo. É um momento tão especial entre Jobim e Chico Buarque, onde cantam Falando de Amor. Demais ! Que saudade ! 

Chovia muito quando TOM JOBIM nasceu. Ainda não eram as águas de março que fecham o verão, mas as de janeiro que o repartem ao meio. Janeiro, 25, 1927, onze e quinze da noite de uma terça-feira. Muita água caindo do céu, nenhuma saindo das bicas da rua Conde de Bonfim, no bairro carioca da Tijuca. O conserto de um cano viera perturbar o nascimento do primeiro filho de Jorge Jobim e Nilza Brasileiro de Almeida, na casa de nº 634. Com a ajuda do irmão de Nilza, Marcelo, a quem coube a tarefa de providenciar água para o parto, e de sua irmã Yolanda, que se desdobrou na cozinha para que não faltasse café para o dr. Graça Mello, que o bebia em doses quase industriais, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim finalmente veio ao mundo com quase 60cm de comprimento e pesando quatro quilos.Aquariano com ascendente em Libra, dois signos ligados ao ar como os seres alados que tanto admirava, no horóscopo chinês, Tom era gato, o que talvez explique sua implicância com deslocamentos e mudanças. E, no entanto, trocar de endereço foi uma das coisas que ele mais fez na vida.A primeira mudança foi em 1931, quando os Jobim trocaram a Tijuca por um bairro da zona sul da cidade, que então não passava de um enorme areal distante de tudo e pouco habitado: Ipanema. A casa ficava na rua Barão da Torre, perto do Bar Vinte. Nela, Tom morou pouco tempo, mudando-se para a rua Constante Ramos, 68, em Copacabana, onde ficou até 1935, quando Jorge Jobim morreu e d. Nilza foi morar na arborizada pensão de d. Adelaide e d. Josefina, na mesma rua. O pouso seguinte—a última casa de uma vila—ficava na travessa Trianon, transversal à rua Siqueira Campos, no mesmo bairro.Criado pela mãe, o avô e os tios maternos, Tom tinha apenas um ano quando seus pais separaram-se pela primeira vez. Após uma curta reaproximação, durante a qual Tom ganhou uma irmã, Helena Isaura, nascida em 1931, o casamento de Nilza e Jorge se desfez para sempre. Dois anos após a morte de Jorge, d. Nilza casou-se com Celso Frota Pessoa, que acabaria transformando-se no verdadeiro pai de Tom e Helena.E foram todos morar novamente em Ipanema, numa casa de pedra da rua Sadock de Sá (nº 276), com fundos para um terreno baldio frontal à Lagoa Rodrigo de Freitas. No andar de cima, os tios (Yolanda e João Lira Madeira) e dois primos; no térreo, Tom, Helena, os pais, os avós maternos e tio Marcelo. Foi naquele ambiente, musical dentro de casa e ecologicamente exuberante do lado de fora, que Tom, assim apelidado pela irmã, desenvolveria seu pendor para a música e sua paixão pela natureza.

Embora tenha manifestado seu gosto pela música precocemente (só dormia embalado pela voz da mãe ou da avó Emília e gostava de escolher o repertório), sua relação mais intensa, a princípio, foi com a praia, as praças e as grimpas de Ipanema, onde nadava, pescava, soltava pipa, andava de bicicleta, subia em árvores, escalava morros e telhados — e quando se cansava tirava uma sesta nos bancos da praça N.S. da Paz. Era capaz de atravessar a Lagoa a nado e volta e meia arriscava um audacioso mergulho das pedras do Arpoador.


A despeito de toda essa esportividade, fazia o gênero contemplativo. Sobretudo na escola. Passou por tantos colégios quanto mudou de casa. Estudou no Mallet Soares, em Copacabana, depois no Mello e Souza, no Paula Freitas, no Rio de Janeiro, dividindo o que então chamavam de curso científico entre o Juruena e o Andrews. Um dia, quando tinha 14 anos, deparou-se, ao voltar da praia, com um piano na garagem de casa. Esse piano mudaria sua vida.

Era um Bechstein alugado para que Helena aprendesse a tocar e o professor Hans Joachim Koellreutter desse aulas no Colégio Brasileiro de Almeida, fundado por d. Nilza. Por achar que piano era “coisa de mocinha”, Tom aproximou-se do teclado com uma certa cautela, combinando notas de brincadeira. Quando se deu conta, já estava fisgado. E tomando aulas com o professor, às vezes durante dez horas seguidas. Com ele aprendeu as coisas básicas, praticou escalas e adquiriu as primeiras noções de composição e harmonia.

Em seguida, passou pelas mãos de Lúcia Branco, que o exercitaria nos clássicos de Bach, Beethoven, Chopin, Ravel, Debussy, Villa-Lobos, e o convenceria a desistir de ser concertista e o estimularia a compor. Com o professor, regente e compositor negro Paulo Silva, “muito sistemático e rigoroso”, segundo Tom, aprofundaria seus conhecimentos de harmonia. Além de piano, aprendeu flauta, harmônica de boca e violão, chegando a formar um conjunto de gaitistas cuja ribalta era a Praça General Osório, em Ipanema. Um dos integrantes do conjunto, Newton Mendonça, seria o primeiro grande parceiro de Tom.


Música, dizia-se, não dava camisa a ninguém e Tom, louco para se casar com Thereza Otero Hermanny, partiu em busca de uma profissão mais segura. Bom de desenho, fez vestibular para arquitetura. Com ajuda do padrasto, que reformou um quarto de empregada para que Tom e Thereza pudessem morar com a família na casa de dois andares da rua Redentor, 307, os dois se casaram, em 15 de outubro de 1949, e foram passar a lua-de-mel em Petrópolis.

Tom não conseguiu ir além do primeiro ano de arquitetura. Teso, resolveu ganhar dinheiro com aquilo em que já era quase doutor. Por intermédio do maestro Alceu Bocchino, diretor da Rádio Clube do Brasil e amigo de tio Marcelo, arrumou emprego como pianista daquela emissora, que logo acumulou com outro, de seis às dez da noite, no Bar Michel. Mas não por muito tempo. Antes que o estresse o destruísse, optou, temporariamente, pela noite.

Passou pelas principais casas noturnas do Rio, alternando ao piano um eclético repertório de ritmos: sambas, boleros, foxes, rumbas, canções francesas, tangos. Até se dar conta de que não iria muito longe embalando noctívagos, bêbados, boêmios e grã-finos. Para ser um músico de verdade, precisaria aprofundar seus conhecimentos de harmonia e orquestração.

Uma vez mais, Celso estendeu-lhe a mão, oferecendo-se para arcar com o aluguel e as contas do mês, enquanto o ex-futuro arquiteto aperfeiçoava seus estudos lendo os “Princípios de Orquestração”, do compositor russo Rimsky-Korsakov, e decorando os arranjos de Glenn Miller nos 78 rotações de sua coleção. Mais tarde, Tom tomaria aulas de orquestração com Leo Peracchi e Tomás de Terán.

Por intermédio do músico Alcides Fernandes, marido da faxineira dos Jobim e morador da favela do Pavãozinho, Tom foi trabalhar na Editora Euterpe, escrevendo arranjos para pequenos conjuntos. Não demorou muito e Sávio Carvalho da Silveira levou-o para a gravadora Continental, onde se ocuparia de colocar em pentagramas as músicas de autores que compunham apenas de ouvido e fazer arranjos e orquestrações para Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Elizete Cardoso e Dick Farney. O arranjador oficial da gravadora era Radamés Gnatalli, grande pianista, regente e compositor, que adotou Tom como seu mais ilustre afilhado musical.

Com o que passou a ganhar na gravadora voltou para Copacabana, pagando do próprio bolso o aluguel de um conjugado no edifício Einstein, na rua Francisco Otaviano, no Posto 6. Àquela altura, o casal já tinha um filho, Paulo, nascido em 4 de agosto de 1950. Em abril de 1953, Tom estreava em disco como compositor, com o samba-canção “Incerteza”, feito em parceria com Newton Mendonça e gravado por Mauricy Moura, cantor santista, discípulo de Silvio Caldas. Dois meses depois, emplacaria mais duas composições num 78 rotações de Ernani Filho: “Pensando em Você” e “Faz uma Semana”, esta em parceria com outro amigo de bairro, João Batista Stockler. Dali em diante, sua carreira só subiria de tom.

Tom ainda teria de esperar mais um ano e três gravações para saborear seu primeiro sucesso:“Tereza da Praia”, samba-canção composto de parceria com Billy Blanco na medida para desfazer os boatos de que Lúcio Alves e Dick Farney se detestavam mutuamente. Ao contrário do que muitos acreditavam, não se tratava de uma homenagem à Thereza Jobim, embora as duas Terezas tivessem “uma pinta do lado”.

1954 foi um ano venturoso para Tom. Só o fato de a Continental passar a produzir LPs de dez polegadas abriu-lhe novas perspectivas, tornando possível registrar em disco os onze movimentos de uma sinfonia, burilada a quatro mãos com Billy Blanco. Era uma exaltação ao Rio, falando do mar, das montanhas, do sol e do cotidiano da cidade, com arranjos de Gnatalli e canções interpretadas pela fina flor do rádio e do disco, como Farney, Lúcio, Elizete Cardoso, Dóris Monteiro, Os Cariocas, Jorge Goulart, Nora Ney e Emilinha Borba. “Sinfonia do Rio de Janeiro” não entrou nas paradas de sucesso mas consolidou a reputação de Tom como o mais promissor talento de sua geração.

No dia em que seu pupilo completou 28 anos, Gnatalli o presenteou com um convite tentador: participar do prestigioso programa da Rádio Nacional, “Quando os Maestros se Encontram”. Tom apresentou-se regendo uma peça sinfônica de sua autoria, “Lenda”, dedicada à memória do pai e que nunca seria gravada. Em maio, a primeira parceria com Dolores Duran, “Se É Por Falta de Adeus”, entrou para o repertório de Dóris Monteiro. Apesar de assoberbado por encomendas (fez arranjos para Dora Lopes, Juanita Cavalcante, Edu da Gaita, Elizete Cardoso, Orlando Silva, Dalva de Oliveira e participou como pianista de um LP de Luiz Bonfá), ainda encontrou tempo para nova mudança de endereço (agora para o apartamento 201 do mítico prédio da rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema). No fim do ano, a recompensa: na lista dos melhores arranjadores da temporada, escolhidos pelo crítico Ary Vasconcellos, Tom dividiu a segunda colocação com Pixinguinha e Renato de Oliveira.

De tanto insistir, Harold Morris, o inglês que dirigia a Odeon, acabou convencendo Tom a aceitar o cargo de diretor artístico da gravadora, a maior do país naquela época. Não demorou a confirmar a desconfiança de que as novas funções prejudicariam suas atividades musicais. Morris implorou para que ele ficasse, Tom, contudo, preferiu no momento certo passar o bastão a um brasileiro recém-chegado dos EUA, Aloysio de Oliveira. Tamanho foi seu alívio ao deixar a Odeon que, ao ser apresentado ao substituto, não conteve o desabafo: “Ainda bem que você chegou”. Mais tarde, em casa, extravasou seu desafogo num poema.
Tom já estaria no lucro se só tivesse feito amizade com Aloysio de Oliveira naquele ano, mas a generosidade dos deuses lhe reservara outra preciosa aproximação para 1956. Ele e Vinícius de Moraes já se conheciam de vista há algum tempo, pois ambos freqüentavam o Clube da Chave, onde Tom vez por outra apresentava-se ao piano. Vinícius também já o vira tocar na boate Tudo Azul. O encontro definitivo, no bar Villariño, no centro do Rio, foi um presente de Lúcio Rangel, velho amigo do poeta. Vinícius procurava alguém para compor a música de uma ópera negra carioca, intitulada “Orfeu da Conceição”, transposição do mito de Orfeu para uma favela, e foi pedir sugestões a Rangel, pois o parceiro em vista, Vadico, desistira da empreitada por não se julgar “à altura” do projeto. Tom topou na hora criar as músicas da tragédia, não sem antes cometer uma pequena gafe. Nascia ali uma das amizades mais instantâneas, fraternais, prolíficas e duradouras da história da música popular brasileira.

No apartamento da Nascimento Silva, mais tarde celebrizado por Toquinho e Vinícius no samba “Carta a Tom 74”, Tom e Vinícius iniciaram logo a faina de “Orfeu da Conceição”. Os dois ou três primeiros sambas foram descartados; eram ruins. Tão logo se entrosaram, saiu uma obra-prima, “Se Todos Fossem Iguais a Você”. E, em seguida, “Mulher Sempre Mulher”, “Um Nome de Mulher”, “Eu e Meu Amor” e “Lamento do Morro”. Após três meses de ensaios, a peça, com Haroldo Costa no papel de Orfeu, estreou no Teatro Municipal do Rio em 25 de setembro de 1956, com lotação esgotada, permanecendo em cartaz até o dia 30. Raras vezes uma encenação brasileira contara com uma equipe tão eclética e talentosa. A imprensa reagiu com entusiasmo. Em 1º de outubro, por iniciativa de Aloysio de Oliveira, a Odeon lançou um LP de dez polegadas com a trilha musical do espetáculo, com Roberto Paiva emprestando sua voz a Orfeu. Em novembro, “Orfeu da Conceição” voltaria à cena no teatro República, durante um mês, a preços populares.

No ano seguinte, numa produção do francês Sacha Gordine, dirigida por Marcel Camus, a partir de um roteiro assinado por Jacques Viot e repudiado por Vinícius, a peça começaria ser filmada no Rio, com o título de “Orphée Noir” (Orfeu Negro) e novo elenco. Com temas adicionais de Bonfá e Antonio Maria, arrebataria o júri do Festival de Cannes de 1959, que lhe daria a Palma de Ouro, e os membros da Academia de Hollywood, que o elegeram o “melhor filme estrangeiro” daquele ano. Vinícius detestou não apenas o filme, mas sobretudo a maneira como os franceses se apossaram das músicas da peça.

Antes de decepcionar-se com “Orfeu Negro”, Tom foi convidado pelo selo Festa para musicar a versão em disco de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine du Saint-Exupéry, estrelado por Paulo Autran, estreou na televisão, dividindo a batuta do programa semanal “Noite de Gala”, da TV Rio, com o maestro Osvaldo Borba, ganhou o prêmio de melhor compositor, da Prefeitura do então Distrito Federal, e viu nascer sua filha Elizabeth, no dia 26 de agosto.

Corria ainda o ano de 1957 quando reencontrou um conhecido baiano que há muito não via, pois ele trocara o Rio por Porto Alegre, retornando a Salvador. Agora estava de volta ao Rio. O baiano era João Gilberto. Chegou mostrando duas composições inéditas: “Bim-Bom” e “Oba-lá-lá”. Tom nem prestou atenção nas letras. Impressionado com a batida diferente do violão do João, quis saber onde ele aprendera a tocar daquele jeito. “Tirei dos requebros das lavadeiras de Juazeiro”, respondeu o baiano. Era por aquela batida que a Bossa Nova estava esperando para poder nascer.

O mesmo Villariño onde se formara a dupla Tom & Vinícius abrigaria, em 1958, outro encontro histórico, envolvendo a dupla e Elizeth Cardoso. Daquela vez o padrinho foi Irineu Garcia, idealizador do selo Festa. Num complicado arranjo, que envolveu os irmãos Vitale, donos de uma das maiores editoras de música do país, e a gravadora Copacabana, que tinha Elizete Cardoso sob contrato, Garcia conseguiu que a cantora, a princípio arredia à idéia, aceitasse gravar um LP só com temas de Tom & Vinícius e uma roupagem orquestral altamente sofisticada. Tom escalou um escrete de instrumentistas, usou trompa, oboé, até clarone, e fez questão de incluir João Gilberto e sua batida nas faixas “Chega de Saudade” e “Outra Vez”. Gravado no estúdio da Columbia, “Canção do Amor Demais” foi lançado na primeira semana de julho e teria uma de suas faixas (“Eu Não Existo Sem Você”) aproveitada numa cena de festa do filme “Pista de Grama”.

Meses depois, mais duas cantoras gravam LPs só com músicas de Tom: Lenita Bruno (“Por Toda Minha Vida”, espécie de versão erudita de “Canção do Amor Demais”, com arranjos de Leo Peracchi) e Silvinha Telles (“Amor de Gente Moça”, com arranjos de Tom e Lindolfo Gaya). Nenhuma delas, porém, causou o mesmo impacto do disco “Chega de Saudade”, com João Gilberto, que Tom convencera Aloysio a gravar na Odeon. Distribuído às lojas em março, marcou o lançamento oficial da Bossa Nova, até porque dele fazia parte o samba-manifesto “Desafinado”. Meses depois, num programa de televisão, o exigente Ary Barroso, que no início torcia o nariz para a Bossa Nova, não se conteve e sentenciou: “Tom Jobim é, disparado, o melhor de todos os novos compositores brasileiros”.

O mais ocupado, sem dúvida, ele era. Ao longo de 1959, Tom começa a pensar numa nova sinfonia, participa de outro filme, “Pluft, o Fantasminha”, adaptado da peça infantil de Maria Clara Machado, para o qual compôs a trilha musical, e durante meses faria as honras de um programa semanal de entrevistas, “O Bom Tom”, na TV Paulista, que, dirigido por Carlos Thiré, alcançaria o segundo lugar em audiência na capital paulista.

A nova sinfonia entrara em sua vida em 1958. Como a primeira, dedicada ao Rio de Janeiro, também foi encomendada—no caso, pelo pianista Bené Nunes, a pedido do presidente Juscelino Kubitschek, que sonhava com um poema sinfônico em homenagem a Brasília, a nova capital do país, inaugurada em 21 de abril de 1961. Acompanhado de Vinícius, que se incumbiria de escrever o recitativo da sinfonia, Tom viajou até o Planalto Central para sentir de perto o clima da região onde a Novacap estava sendo erguida. De lá voltou com os cinco movimentos de “Brasília, Sinfonia da Alvorada” na cabeça. Planejada para um espetáculo de luz e som, acabou tendo sua festiva execução pública cancelada, por falta de verba. Só em disco pôde ser ouvida durante algum tempo. Apenas duas vezes ela seria apresentada diante de uma platéia: em 1966, pela TV Excelsior de São Paulo, e em 1986, na Praça dos Três Poderes, regida por Alceu Bocchino, com Radamés Gnatalli ao piano e Tom e Susana de Moraes lendo o recitativo de Vinícius.

Enquanto a capital se mudava para Brasília, João Gilberto lançou seu segundo LP, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, com seis composições de Tom, três das quais em parceria com Newton Mendonça: “Meditação”, “Discussão” e o paradigmático “Samba de uma Nota Só”, que se transformaria numa espécie de hino da Bossa Nova. Após o terceiro LP, simplesmente intitulado “João Gilberto”, com três músicas de Tom, entre as quais a inédita “Insensatez”, o cinema volta a seduzir o compositor, que compõe a trilha musical de “Porto das Caixas”, de Paulo César Saraceni, e participa como ator, ao lado de João Gilberto, do filme italiano rodado no Rio, “Copacabana Palace”, com Mylène Demongeot, para o qual também fez a trilha musical.




Ao palco Tom só retornaria em meados de 1962, quando o empresário Flávio Ramos convidou Aloysio de Oliveira para montar um pocket show na boate Au Bon Gourmet, que acabara de comprar em Copacabana. No memorável show, intitulado “Encontro” e estrelado por Tom, Vinícius (que pela primeira vez cantou em público), João Gilberto e o conjunto vocal Os Cariocas, foram lançados cinco dos maiores clássicos da Bossa Nova: “Só Danço Samba”, de Tom e Vinícius; “Samba do Avião”, de Tom; “Samba da Benção” e “O Astronauta”, de Baden e Vinícius; e, por fim, o maior sucesso da dupla Tom-Vinícius, “Garota de Ipanema”, que só sairia em disco no ano seguinte, conquistando de roldão duas dezenas de intérpretes, entre os quais o cantor Pery Ribeiro, o Tamba Trio, a cantora Claudette Soares e diversos grupos instrumentais, daqui e do exterior.

No mesmo mês em que estreou o show do Au Bon Gourmet, o saxofonista Stan Getz e o guitarrista Charlie Byrd gravaram o LP “Jazz Samba”, que permaneceria diversas semanas no Hit Parade. Numa das faixas, uma versão instrumental de “Desafinado”, que só naquele ano ganharia nos EUA uma dezena de intérpretes, vários deles jazzísticos, como Lalo Schifrin, Quincy Jones, Coleman Hawkins e Dizzy Gillespie. Não dava mais para evitar o inevitável: dali em diante, a Bossa Nova faria da América a sua segunda pátria. E o melhor que os bossanovistas tinham a fazer era mostrar ao vivo para os gringos como era mesmo que se tocava aquele sambinha feito de uma nota só.

A apresentação oficial da Bossa Nova aos americanos teve como palco o Carnegie Hall de Nova York, num concerto promovido em 21 de novembro de 1962 pelo consulado brasileiro e Sidney Frey, dono da gravadora Audio Fidelity. A representação do Instituto Brasileiro do Café em Nova York assumiu as despesas de hospedagem dos artistas e a Varig dividiu com o Itamarati o custeio das passagens aéreas. Tom não queria ir e só aterrissou em Nova York no dia do show, cuja repercussão, em Nova York e no Brasil, ficou muito aquém das expectativas mais otimistas. O próprio Tom achou o espetáculo um primor de desorganização. Aloysio de Oliveira pensara num show pequeno, bonito e bem montado, apenas com Tom, João Gilberto, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos, Sérgio Mendes e Oscar Castro Neves. Mas Frey fez corpo mole e aceitou convidados e bicões em demasia.

Tom não foi o único a permanecer em Nova York depois do concerto. João Gilberto e Sérgio Ricardo também ficaram. Tom mandou buscar Thereza e com ela hospedou-se no hotel Diplomat até julho, quando voltaram para o Brasil de navio cargueiro. Doze dias após o show do Carnegie Hall Tom apresentou-se no templo jazzístico nova-iorquino The Village Gate e, 48 horas mais tarde, no Listener’s Auditorium, em Washington, diante de duas mil pessoas, entre as quais o crítico de música do jornal “Washington Post”, que o cobriu de elogios. Apareceu em seguida num programa de TV com o saxofonista Gerry Mulligan.




Os convites eram muitos, mas dinheiro, que é bom, nada. Para defender melhor seus direitos, Tom criou, por insistência de Thereza, a editora Corcovado Music. E foi à luta. Para a Verve gravou seu primeiro disco americano, o instrumental “Antonio Carlos Jobim—The Composer of Desafinado Plays”, acompanhado de grande orquestra, e solou ao piano nos LPs “Jazz Samba Encore!” (com Stan Getz, Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo) e “Getz/Gilberto” (com Getz, Joâo Gilberto e Astrud Gilberto). Por intermédio de Aloysio de Oliveira, aproximou-se de Ray Gilbert, que, sabedor das restrições que Tom fazia às versões para o inglês que Norman Gimble, Gene Lees e a dupla Jon Hendricks/Jeff Cavanaugh haviam feito de algumas de suas músicas, ofereceu seus serviços como letrista — e editor. Nem as letras em inglês das músicas de Tom melhoraram de qualidade, escritas por Gilbert, nem ele ficou rico.

Quando o casal Jobim chegou de volta ao Rio, em meados de 1963, Aloysio já havia criado a Elenco, que Tom procurou ajudar de tudo quanto foi jeito. Depois de participar do LP “Bossa Nova York”, com Sérgio Mendes, Art Farmer, Phil Woods e Hubert Laws, gravado pela Elenco em Manhattan, aceitou de bom grado uma sugestão de Aloysio: um encontro com Dorival Caymmi e os filhos do compositor baiano, Danilo, Nana e Dori. “Caymmi Visita Tom” marcaria a estréia de Tom como cantor, em disco. Quando 1964 chegou ao fim, Tom recebeu três prêmios Grammy: pela autoria de “Desafinado” e “Garota de Ipanema” e pelos arranjos de “Brazil’s Brilliant João Gilberto”.

Uma longa temporada na Costa Oeste dos EUA o esperava em 1965. Até shows em Lake Tahoe ele fez. Por três vezes deu o ar de sua graça no programa de TV do cantor Andy Williams, uma delas na companhia de Caymmi, cuja valsa “Das Rosas” Williams alçara recentemente às paradas de sucesso. Aproveitou a temporada para realizar um sonho de todo músico de sua geração, gravar um disco com Nelson Riddle, o arranjador favorito de Frank Sinatra. Apesar das qualidades de “The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim”—no qual “Surfboard” e “Bonita” (dedicada à atriz Candice Bergen) foram lançadas—, Tom continuou preferindo (ou sentindo muito mais afinidade com) Claus Ogerman, à cuja sombra faria outro disco, desta vez para a Warner, “A Certain Mr. Jobim”, que demoraria dez anos para ser lançado no Brasil.

Meses depois, enquanto tomava chope com amigos no mesmo bar celebrizado por “Garota de Ipanema”, Tom recebeu o mais surpreendente telefonema de sua vida. Do outro lado da linha, ninguém menos que Frank Sinatra. “The Voice” queria gravar um disco só com músicas de Tom, que topou na hora. Foi uma conversa curta. Quando se recuperou da surpresa, Tom lembrou-se da esnobada que um editor nova-iorquino lhe dera três anos antes, envolvendo indiretamente a figura de Sinatra.

Em janeiro de 1967 hospedou-se no Sunset Marquis de Los Angeles para dar início ao trabalho, afinal adiado porque Sinatra refugiara-se em Barbados para esquecer mais uma desavença conjugal com Mia Farrow. Enquanto esperava, repassou todos os arranjos com Ogerman, compôs mais duas músicas (“Wave” e “Triste”) e quase morreu de tédio.

As gravações de “Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim” começaram às 20h do dia 30, no Studio One da Warner Western Sound, em Sunset Strip. Por precaução, Sinatra gravou primeiro duas das três canções americanas incluídas no repertório, “Baubles, Bangles and Beads” e “I Concentrate on You”, com as quais só não tinha intimidade em ritmo de Bossa Nova. A primeira de Tom que ele encarou foi “Dindi”, seguida de “Change Partners”. A última faixa da noite foi “Inútil Paisagem”. Apesar do natural nervosismo do brasileiro, a sessão transcorreu num clima de extrema afabilidade. Nas duas noites seguintes não seria diferente.

A crítica americana elegeu o encontro de Sinatra e Jobim o álbum do ano. Nas vendas perdeu apenas para “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Um segundo disco com os dois seria gravado dois anos depois, com o título de “Sinatra & Company”, com arranjos de Eumir Deodato. Àquela altura, Tom e o cantor já haviam se tornado amigos. Quando dos preparativos de um especial sobre Sinatra, A Man and His Music, co-estrelado por Ella Fitzgerald, para a rede de televisão NBC, em setembro de 1967, Francis Albert não se esqueceu de convidar Antonio Carlos. Sinatra, aliás, abriu o programa cantando “Corcovado”.

Quando o especial com Sinatra foi ao ar, em novembro, Tom já havia computado outro feito histórico: sua primeira parceria com Chico Buarque, “Retrato em Branco e Preto”, que lá fora, em versão instrumental, já era conhecida com o título de “Zingaro”. Outra façanha teria acrescentado ao seu currículo naquele ano se tivesse cedido aos insistentes apelos do cineasta Glauber Rocha para protagonizar o filme “Terra em Transe”.

Por uns tempos Chico Buarque seria o novo Vinícius de Tom. Juntos apareceram num show (“Discomunal”), ao lado de Deodato, Baden Powell e outros, inaugurando uma temporada cujo ponto alto seria a inesperada vitória de “Sabiá” no III Festival Internacional da Canção. Tom e Chico nem pretendiam participar do festival. Inscrever “Sabiá” foi a saída que Tom encontrou para livrar-se de um fardo, para ele, ainda mais pesado: ser membro do júri que apontaria as canções vencedoras. O triunfo da nova parceria de Tom e Chico teve o efeito de uma bomba e as feridas que abriu não cicatrizaram de um dia pro outro.

No festival seguinte, outra bomba. Irritados com os desmandos da censura, Vinícius, Chico, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marcos Valle, Sérgio Ricardo, Paulinho da Viola, Rui Guerra, José Carlos Capinam, Baden Powell, Milton Nascimento, Egberto Gismonti e outros decidiram boicotar o evento. Tom adere ao boicote e entra para a lista negra da ditadura militar, que desde 1964 se perpetuava no poder e em 1970 mandou prendê-lo “para prestar depoimentos”. A situação política do país se agravava e Tom encontrou sua válvula de escape na tela, compondo trilhas musicais para filmes brasileiros (“A Casa Assassinada”, pela qual seria premiado no Festival de Cinema Brasileiro de Brasília em 1971) e estrangeiros (“Os Aventureiros”, cujos temas escreveu numa luxuosa casa de três andares em Londres, alugada pela Paramount).

Uma das faixas da trilha de “Os Aventureiros”, uma valsa intitulada “Children’s Game”, seria incorporada ao LP “Stone Flower”, com letra em português e outro nome, “Chovendo na Roseira” (“Double Rainbow” para os americanos). De certo modo, estava oficialmente inaugurada a fase ecológica de Tom Jobim, que duraria mais do que os quatro anos (1972-1976) em que lançou “Águas de Março” e dois LPs com nomes de pássaros, “Matita Perê” e “Urubu”, recheados de canções inspiradas ou voltadas para a natureza, como “Sabiá”, “Tempo do Mar”, “Rancho nas Nuvens”, “Nuvens Douradas”, “Boto” e “Correnteza”.

Escrita no retiro de Poço Fundo e lançada de forma singular — num compacto encartado na primeira edição do “Disco de Bolso do Pasquim”— “Águas de Março” se transformaria num dos mais instantâneos e retumbantes sucessos do compositor. Na gravação original, feita na Semana Santa de 1972, seu autor apenas cantou, acompanhado de quatro flautistas (Bebeto, seu filho, Paulinho Jobim, Franklin e Paulo Guimarães), João Palma na percussão, Novelli no contrabaixo e Eduardo Ataíde no violão. Só naquele ano, a nova obra-prima de Tom ganharia quase dez intérpretes, no Brasil e na América, nenhuma tão elogiada quanto a de ELIS REGINA em dueto com o autor, no LP “Elis & Tom”. Chico Buarque chegou a dizer que às vezes achava “Águas de Março” o samba mais bonito do mundo. Ao ouvir sua versão em inglês, feita pelo próprio Tom, o crítico Leonard Feather não se conteve: “É uma das dez músicas mais bonitas do século”.

No mesmo ano em que gravou o fundamental “Urubu”, com músicos da Sinfônica de Nova York e arranjos de Claus Ogerman, Tom conheceu Ana Beatriz Lontra, fotógrafa de 19 anos. Empolgou-se como um adolescente, cobriu-a de versos galantes, mas só começaram a namorar depois que Tom afinal separou-se de Thereza, em 1977. Em pouco tempo, Ana se ligaria ao namorado também profissionalmente, integrando um coral familiar por ele montado para um show no Canecão, que Aloysio de Oliveira produziu com mais três estrelas: Vinícius de Moraes (fazendo sua rentrée nos palcos cariocas após 15 anos de ausência), Toquinho e Miúcha (que acabara de gravar o LP “Miúcha & Antonio Carlos Jobim”). Ao lado de Ana, a filha de Tom, Beth, e três irmãs de Chico, Pii, Cristina e Bahia.

Tamanha foi a acolhida do público que o espetáculo, programado para ficar quatro semanas em cartaz, só saiu do Canecão oito meses depois, rumando para São Paulo, onde lotou o Anhembi durante um mês, e para o Uruguai, onde por várias noites agitou um cassino de Mar del Plata. Sua carreira, contudo, se estenderia até Paris (dez apresentações no Olympia) e várias cidades da Itália e Suiça. Mas antes de abafar na Europa com o show de Aloysio, Tom e Ana passaram três meses de lua-de-mel no hotel Adams de Nova York, onde Tom encontrou tempo para acrescentar mais duas pérolas ao seu patrimônio musical, “Você Vai Ver” e “Falando de Amor”. Também foi naquele hotel que ele escreveu a letra em inglês de “Águas de Março”.

De volta ao Brasil, Tom e Ana se acomodam, temporariamente, num hotel de Ipanema. Uma excursão à Europa, com o show do Canecão, interrompe, em dezembro, as gravações do Lp “Miúcha & Tom Jobim”, levando a turma ao Olympia de Paris e a várias cidades da Itália e Suiça. Antes de 1978 chegar ao fim, Tom e Ana alugam uma casa na rua Peri, no Jardim Botânico, onde irão morar os próximos seis anos. Nos quatro anos seguintes, Tom lançou o álbum duplo “Terra Brasilis”, reatou sua parceria com Chico Buarque, teve seu primeiro filho com Ana, João Francisco, dividiu um disco com Edu Lobo (“Tom & Edu, Edu & Tom”), ganhou o prêmio Shell de melhor compositor de 1982, começou a construir uma casa no alto do Jardim Botânico.

O começo da década de 80 foi marcado por homenagens à sua obra e à sua personalidade: além de um especial em quatro programas na TV Manchete, “A Música Segundo Tom Jobim”, dirigido pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, em 1984, foi nomeado conselheiro cultural do Estado do Rio de Janeiro pelo antropólogo e vice-governador Darcy Ribeiro. E também por uma intensa atividade no cinema e na televisão.A valsa “Luíza” foi tema da telenovela “Brilhante” e “Passarim”, uma das músicas que compôs para a minissérie “O Tempo e o Vento”. Para o filme de Arnaldo Jabor, “Eu Te Amo”, Tom fez uma valsa homônima, de parceria com Chico Buarque. Mas em “Gabriela” (1982), “Para Viver um Grande Amor” (1983) e “Fonte da Saudade” (1985) sua participação foi muito além do tema principal.

Outras trilhas sonoras para o cinema, contudo, tiveram de ser recusadas ou adiadas para que o maestro pudesse atender a um convite irrecusável: tocar acompanhado da ORF Sinfonietta de Viena, na Wienner Konzerthausgeselschaft. Receoso de um descompasso, pediu para levar o cantor e flautista Danilo Caymmi, o filho Paulo Jobim, o baixista Tião Neto e o baterista Paulo Braga. Dispensou os metais, substituindo-os por vozes femininas, as de Ana e Beth Jobim e Simone, mulher de Danilo. Estava formada a Banda Nova, que, logo acrescida do violoncelista Jaques Morelenbaum, sua mulher, Paula, e Maúcha Adnet, faria sucesso durante dez anos, inclusive fora do Brasil, sempre acompanhando o seu criador.

Cabral, acompanhado de um disco duplo, produzido pelo pesquisador Jairo Severiano, no qual Tom passava em revista alguns de seus clássicos, com novos arranjos. O livro seguinte seria uma produção doméstica: "Ensaio Poético", com fotos de Ana Jobim, patrocinado pela IBM e lançado pela Record em 1988, pouco antes de chegar às livrarias uma coletânea de textos e poemas de Tom, editada pela Expressão e Cultura, "Jardim Botânico do Rio de Janeiro” e ilustrada com fotos de Zeca Araújo.

Para celebrar o jubileu de prata da gravação de Astrud de “Garota de Ipanema”, montou-se no Carnegie Hall uma grande festa na noite de 15 de março de 1989, com a presença de seu autor. Em 25 anos, “Garota de Ipanema” ultrapassara as 3 milhões de execuções em emissoras de rádio e televisão, fazendo de Tom o segundo autor estrangeiro mais executado nos Estados Unidos. Apesar de três grandes perdas afetivas naquele período (Vinicius, em julho de 1980, D. Nilza, em novembro de 1989, e tio Marcelo algumas semanas depois), a década de 80 fechou de forma auspiciosa para Tom Jobim. A de 90 seria dedicada, em grande parte, a apresentações em público no Brasil e turnês pelo mundo. Todos queriam ouvir e ver de perto o Michelangelo da bossa nova.




Janeiro de 1990 começou, para ele, com um show em homenagem a Vinicius, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, seguido de outro, com Milton Nascimento e Chico Buarque, marcando a inauguração da Universidade Livre da Música, em São Paulo, para a qual Tom foi nomeado reitor e, depois, presidente de seu Conselho Diretor. Quando, nos primeiros dias de fevereiro, lançaram no Brasil o disco “Família Jobim”, ele já estava de volta a Nova York, onde ficaria quatro meses, só retornando para participar do Festival de Inverno de Campos de Jordão, no interior de São Paulo, e num espetáculo montado por Roberto de Oliveira, no Memorial da América Latina, na capital paulista. Em novembro, dividiu com Caetano Veloso o palco, os aplausos e o prêmio Tenco do Festival de San Remo, na Itália. Convidado pelo compositor Sammy Cahn, ingressou no fechadíssimo Hall of Fame da música popular americana, ao lado de Cole Porter, Irving Berlin, os irmãos George e Ira Gershwin e o francês Michel Legrand. De volta ao Rio, em dezembro, apresentou-se no Scala, do Rio, onde oficialmente foram lançados os três volumes do Songbook editado pela Lumiar, de Almir Chediak.

Nascido no dia em que São Paulo também faz anos, Tom aceitou de bom grado o convite de Roberto de Oliveira para estrelar um show no ginásio Ibirapuera, em 25 de janeiro de 1991, afinal assistido por 28 mil pessoas. Para que os cariocas não ficassem com ciúmes, acertou com a prefeitura do Rio um espetáculo pelos 426 anos da cidade, em 1º de março, na ponta do Arpoador, praia de sua infância. Algumas semanas mais tarde, subiria outra vez ao palco do Carnegie Hall para participar de um encontro musical em prol da Fundação Mata Virgem, organização não-governamental criada por Sting. No segundo semestre, ao longo do qual compôs o fox “Querida” para a telenovela de Gilberto Braga, “O Dono do Mundo”, Tom só faria shows no Brasil: no Canecão (em junho), no teatro Guararapes, de Recife (em julho), no Rio Centro (com a família Caymmi) e na quadra da Mangueira, para arrecadar fundos para o próximo desfile carnavalesco da escola.

Tom tinha um interesse especial no próximo desfile da Mangueira. Afinal de contas, ele era o tema de seu samba-enredo, “Se Todos Fossem Iguais a Você”. Entusiasmado com a homenagem (“Foi como se tivesse conquistado o Prêmio Nobel da Paz”), retribuiu com um samba, “Piano na Mangueira”, composto de parceria com Chico Buarque. Novas emoções em público o esperavam nos meses que se seguiram ao desfile no Sambódromo: o show de abertura da Exposição Internacional de Sevilha, na Espanha, outro, para 5 mil pessoas, no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, o grand finale da Rio Eco-92, no estádio de remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, e um espetáculo em torno do músico belga Toots Thielemans em Los Angeles. Culminando, em dezembro, com um reencontro de Tom e João Gilberto, no palco do Teatro Municipal do Rio e do Palace, em São Paulo, para comemorar os 30 anos do primeiro concerto de bossa nova no Carnegie Hall, que se transformou no especial de fim de ano da TV Globo, dirigido por Walter Salles Jr. e Boninho.

Outro especial para a televisão o esperava no início do ano seguinte: “Tom & Milton”, produzido para a Bandeirantes, com Milton Nascimento. As câmeras não o deixavam em paz. Nos últimos dias de janeiro, participara de um documentário de Rodolfo (Dodô) Brandão com mais três ilustres Antonios: o crítico literário Antonio Candido, o escritor Antônio Callado e o lexicógrafo e acadêmico Antônio Houaiss — justamente intitulado “Três Antônios e Um Jobim”. Em favor de Callado, a quem muito admirava, desistiria de concorrer, oito meses depois, à cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, que pertencera a Austregésilo de Athayde. E a ABL passou a ter, pelo menos, dois Antônios (Houaiss e Callado) e nenhum Jobim. Seu único silogeu continuou sendo a Academia Nacional de Música Popular Americana, a que pertencia desde 1990.




Com um tributo à sua obra, no Free Jazz Festival, de que participaram Herbie Hancock, Shirley Horn, Ron Carter, Joe Henderson, Gonzalo Rubalcaba, Jon Hendricks, Gal Costa e Oscar Castro Neves, e um novo disco, Tom encerrou a temporada de 1993. O novo disco, “Antonio Brasileiro”, com participações especiais de Dorival Caymmi e Sting, também seria o último de sua carreira. Parecia mesmo uma despedida, com a presença recorde de familiares: além dos habituais (Ana, Paulo e Beth), o neto Daniel e a filha Maria Luíza, de sete anos, cantando com o pai “Samba Para Maria Luiza”. O disco só seria lançado em novembro de 1994. Até lá, Tom faria mais três shows e entraria apenas uma vez num estúdio de gravação.

Em duas noites seguidas de abril, reapareceu no Carnegie Hall: na primeira, para comemorar os 50 anos da Verve, na companhia de Pat Metheny, Joe Henderson, Charles Haden e Al Foster; na segunda, para promover a Rainforest Foundation, ao lado de Sting, Elton John e Luciano Pavarotti. Em maio, daria, em Jerusalém, seu último espetáculo, passando os quatro meses seguintes no Rio, onde preferiu gravar a faixa (“Fly Me To the Moon”) que lhe coube no segundo disco de duetos de Frank Sinatra, “Duets II”. Em 15 de setembro, três dias após gravar sua parte no dueto com Sinatra, viajou até Nova York para submeter-se a uma angioplastia e avaliar o grau de comprometimento de seu sistema circulatório. Por motivos de saúde, cancelou uma gravação que agendara com Joe Henderson. Receosa de não conseguir sua presença no lançamento de um projeto que reunia um livro sobre a Mata Atlântica, com texto de Tom e 50 fotos de Ana Jobim, e um vídeo, “Mata Atlântica—Visão do Paraíso”, produzido por Walter Salles Jr. e dirigido por Flávio Tambellini, a editora Index adiou tudo para junho do ano seguinte. Num dos vários exames a que Tom se submeteu, detectaram um tumor maligno em sua bexiga—e uma cirurgia foi marcada para o dia 6 de dezembro, no Mount Sinai Medical Center. No dia 8, enquanto convalescia da cirurgia, teve uma parada cardíaca, às 8h. A segunda, duas horas depois, provocada por uma embolia pulmonar, lhe seria fatal.

Seu corpo desembarcou no Rio no dia 9 e foi velado no Jardim Botânico, dali seguindo para o cemitério de São João Batista, após desfilar em cortejo pela cidade que ele tanto amou e cantou em suas canções.

“A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore, foi a derrubada de uma floresta”, escreveu Arnaldo Jabor, resumindo à perfeição um sentimento universal.

Um comentário:

  1. Vim conhecer seu espaço e gostei muito! Muito seleto e diversificado. Parabéns. A educação é a base do ser humano para sua vida em sociedade e para uma vida feliz. Também sou educador e vejo que nossa base holística é o caminho mais ameno a seguir, repleto de aprendizados diários.
    Obs: Também virei seu seguidor.
    Prof. José Carlos
    http://projetosead.blogspot.com/

    ResponderExcluir